Parte 4 – Microbiota Intestinal


À medida que amadurecemos, nós adquirimos novos micro-organismos a partir do leite materno, comida, água, animais, solo e de outras pessoas. Em algum momento na infância, uma vibrante comunidade de 500 a 1000 espécies se estabiliza. Algumas espécies são nativas apenas ao ser humano, e podem ter sido passadas de geração em geração como joias de família. Outros são generalistas – talvez tenham embarcado a partir de animais de estimação, gado, ou outros animais. A maioria das nossas bactérias habita o cólon, a parte final do intestino, onde nos ajudam a digerir as fibras, captar calorias, e nos protegem de “micro-vândalos” (bactérias patogênicas). Mas também fazem muito, muito mais. Animais criados sem bactérias praticamente não têm um sistema imunológico. Repertórios inteiros de glóbulos brancos (leucócitos) permanecem dormentes; seus intestinos não desenvolvem as vilosidades características; seus corações ficam pequenos; genes em seus cérebros que deveria estar desligados, permanecem ligados. Sem seus micróbios, os animais não são realmente “normais”. 
Assim, o intestino não é apenas o lugar onde absorvemos nutrientes. É também um local de confluência do sistema imunológico e um segundo cérebro. E está repleto de micróbios. Eles em geral não cruzam as paredes intestinais até a corrente sanguínea mas, não obstante, mudam a forma como os sistemas imune, endócrino,  e nervoso funcionam do outro lado da barreira. Quem estuda as comunidades microbianas humanas alega que elas estão sofrendo uma crise de extinção similar à que afeta nossa biosfera como um todo – e parte da culpa está na medicina moderna. Alguns estudos sugerem que bebês nascidos de cesariana, privados do contato com os micróbios vaginais da mãe no momento do nascimento, têm maior risco de doença celíaca, diabetes tipo 1 e obesidade. O uso de antibióticos no início da vida – que assola o ecossistema bacteriano como um incêndio em uma floresta – também foi associado a doenças alérgicas, doença inflamatória intestinal e obesidade.
O que nos traz à questão que mais e mais cientistas estão indagando: se nossa microbiota exerce um papel tão importante em manter-nos saudáveis, então que tal atacar doenças cuidando de nossa microbiota? Afinal, nossa comunidade microbiana é bastante plástica. Novos membros podem chegar e se estabelecer; membros antigos podem ser eliminados; a proporção entre grupos de germes pode mudar. Já o genoma humano, por sua vez, é comparativamente rígido e pouco responsivo. Assim, a microbiota representa uma imensa oportunidade para tratar – e prevenir – doenças crônicas. Em particular, o “órgão esquecido”, como alguns chamam a microbiota, pode ser a chave para se lidar com nossa maior ameaça à saúde pública: a obesidade.